INOVA BERRINI

Rio Pinheiros: travessia pela Berrini

O curso natural do Pinheiros, antes das obras de retificação ocorridas na década de 1940, tinha um traçado muito diferente do atual e o rio ia cortando o Brooklin até atravessar a atual Berrini. Muitos prédios e empresas como a Globo, Vivo, D&D Shopping e WTC não estariam instaladas onde estão hoje. 

As curvas do rio Pinheiros com a área demarcada para retificação próximo ao rio Grande

Retificação é tornar algo reto, no caso, o rio. Antes das “grandes obras“, o Pinheiros era um rio sinuoso que corria bem devagar, com suas nascentes e córregos desaguando nas águas calmas, quase paradas que só saiam da inércia com as chuvas que inundavam as terras baixas do Brooklyn Paulista espraiando-se pelas várzeas, chácaras e as poucas casas que haviam por lá.

Várzeas do rio Pinheiros: constantes inundações

Em 1920 um projeto ambicioso iria alterar para sempre o curso do rio e dos córregos da capital. Conhecido como Projeto Serra e idealizado pela canadense “The São Paulo Tramway, Light & Power” (mais conhecida como Light) incluia a implantação das represas Rio das Pedras e Billings, a retificação do rio Pinheiros desapropriando os terrenos da várzea e a reversão do fluxo de suas águas através de duas estações de bombeamento.

O complexo Henry Borden: período de consrução 1926 a 1950

Uma delas, a Usina Elevatória da Traição (aquela ao lado da ponte dos Bandeirantes) foi concluída em 1939. São Paulo começava a ter pressa e fazer “o rio correr ao contrário” iria abastecer a represa Billings e assim enviar as águas para a geração de energia na usina hidrelétrica Henry Borden.

Construção da Usina Elevatória de Traição: reversão das águas do rio
Inaugurada em 1940 e construída pela Light, hoje pertence à EMAE

As obras de retificação iniciaram-se em 1928 e estenderam-se até a década 50. Mas alterar o curso do rio não era suficiente para atender a demanda de crescimento da cidade sem também retificar, enterrar e canalizar os córregos para controle das enchentes, servir de infra-estrutura sanitária e construir avenidas sobre eles. No Brooklin, por exemplo, os córregos da Traição, Espraiada e Cordeiro deram origem às avenidas dos Bandeirantes, jornalista Roberto Marinho e Vicente Rao, respectivamente.

Um traçado bem diferente

O leito do rio Pinheiros, antes da retificação, passava ao lado da estação Berrini da CPTM, adentrava pelo quarteirão onde se encontra atualmente o “Robocop” (edifício Plaza Centenário), avançava pelas ruas Sansão Alves dos Santos, Flórida e rua Geraldo Flausino Gomes, cruzava a Berrini e seguia serpentendo pelo bairro, mais de 500 metros de diferença em relação a seu traçado atual. A arquiteta urbanista Angela Kayo realizou uma pesquisa do Pinheiros e sobrepôs mapas do antigo leito do rio ao das ruas de São Paulo: “Nos locais onde passava o rio Pinheiros, a água aparece nas inundações decorrentes de problemas de drenagem e aterro, e nas sarjetas devido ao exaustivo bombeamento do lençol freático onde há subsolos de garagem“. O painel com as imagens do fotógrafo Carlos Alkmin foi exposto na 10° Bienal de Arquitetura de São Paulo em 2013.

Trecho “Berrini” do painel de Angela Kayo exibido na 10a Bienal

Não fossem as obras do Pinheiros, vários edifícios nem poderiam existir pois estariam dentro do rio ou muito próximo a ele:

  • o complexo WTC, D&D Shopping, Sheraton Hotel;
  • as torres do CENU e o hotel Hilton;
  • vários prédios da Bratke & Collet nas ruas Flórida, Sansão Alves dos Santos, Geraldo Flausino Gomes, Arandú, Luigi Galvani;
  • a praça Lion Monções;
  • o C&C e Etna;
  • a rede Globo;
  • a Vivo;
  • o shopping Market Place.
Estes edifícios não existiram onde estão hoje se não houvesse a retificação do rio Pinheiros

Para reverter o curso do rio, a usina elevava o nível da água num trecho que recebia as águas dos córregos Cordeiro, Espraiada e Traição. Por este motivo a Light teve que construir uma galeria paralela ao rio denominado “Dreno do Brooklin” para captar as águas dos três córregos e conduzi-los até desaguar no rio, à jusante da Usina da Traição. Anos depois, sobre o dreno ergueu-se uma das avenidas mais importantes de São Paulo batizada em 1965 de engenheiro Luis Carlos Berrini.

Avenida Luis Carlos Berrini construída sobre o dreno do Brooklin paralela ao rio Pinheiros

Moradores da época e sua relação com os córregos

A várzea regada pelo Pinheiros, depois de devidamente deseccada e servida de meios de transportes, poderá ser aproveitada para bairros industriais rapidamente florescentes. A canalização do rio evitará definitivamente as inundações, as mudanças de curso, os depositos de alluvião e saneará a região facilitando a drenagem dos brejos e aguas estagnadas.”

(Petição de 1927 enviada pela Light à Câmara solicitando a concessão para a execução das obras)

Mesmo após as intervenções nos córregos, moradores daquela época relembram que as enchentes ainda eram comuns na região. A família Presser morava em uma casa na Rua Quintana na década de 60. “Haviam duas pontes de concreto sobre o dreno, uma na Guararapes e outra na Central, hoje avenida Padre Antonio José dos Santos. Nas outras ruas como a Quintana e Taperoá eram estreitas pinguelas de madeira formada por dois troncos com transversais. Cada vez que chovia, a enxurrada levava a ponte embora e tinha que construir tudo de novo.“, conta José Norberto Presser, o Bebeto. Sua irmã, Vera Presser, relembra com saudades quando a Berrini ainda era um córrego e suas ruas, de terra : “Os funcionários da Hípica Paulista vinham nas margens com facões cortar o capim para alimentar os cavalos. Aos domingos cavaleiros elegantes passeavam com aqueles cavalos enormes e pelos muito brilhantes pelas ruas dos bairros.”

Recibo do professor Arnold Presser da compra da casa na rua Quintana

Mara Oliveira mudou-se para o Brooklin em 1950, na rua Guaraiuva.
Cidadã brookliana, foi batizada pelo próprio padre Antonio José dos Santos, primeiro pároco da igreja São João de Brito . Mara relembra seus tempos de infância: “Em 1955 nos mudamos para a antiga Rua 4, a atual rua Mário Gonçalves da Silva, onde fica hoje o edifício Mandarim. Havia uma nascente,  próximo à Rua Flórida, onde pegávamos água potável, que também servia para o banho pois, na região, a água dos poços era amarelada e com sabor desagradável. Havia muita areia, em todos os locais e alguns moradores vinham pegar para construir as casas. Nos espaços onde retiravam areia, ficavam buracos e quando chovia, os mesmos  ficavam cheios de água. Brincávamos de nadar pois não eram fundos… era nossa piscina. “

A artesã Mara Oliveira passou a infância brincando nas várzeas do Brooklin
Leia a deliciosa crônica de Ivo Pontes: “Um córrego chamado Águas Espraiadas

Entre Rios e ruas

As obras de retificação dos rios e córregos de São Paulo foram literalmente um divisor de águas entre a vida pacata, quase parada dos paulistanos daquela época em contraste com a pressa paulistana dos dias de hoje .

Foto aérea de 1958: Dreno do Brooklin, a futura Berrini

No início do século XX, um projeto representava o contraponto ao Plano das Avenidas de Prestes Maia. Tratava-se da proposta do engenheiro sanitarista que havia projetado o canal de Santos, Saturnino de Brito, e levava em conta um maior respeito ao movimento natural do curso dos rios e córregos. Previa a utilização integrada da bacia hidrográfica para, além de suprir as demandas de saneamento e energia, utilizá-los também como meios de transporte e lazer com a implantação de parques lineares, lagos artificiais e áreas verdes para captar e absorver as águas das chuvas.
No final a proposta de Prestes Maia contou com o apoio político para moldar os rumos urbanísticos da cidade.

Propostas de Saturnino de Brito para a bacia hidrográfica do Rio Tietê. (fonte Renato Zucollo)

Quase cem anos depois, estas ideias voltaram a ser discutidas: integrar a cidade aos rios e mostrar que por baixo das avenidas nossos córregos estão vivos. O projeto “Rios e Ruas“, iniciativa do geógrafo Luiz Campos Junior e do arquiteto e urbanista Jose Bueno, propõe a redescoberta dos rios subterrâneos e córregos sob o asfalto, casas e edifícios caminhando pelas ruas da capital:

Grupo Santander: Luiz Campo Junior em palestra e expedição ao centro de São Paulo

Em qualquer ponto da cidade há um curso d’água a 10 minutos de caminhada.“, explica Luiz. “O dreno do Brooklin que capta as águas dos córregos Traição, Uberaba, Cordeiro e Espraiada faz a integração com vários bairros do centro e zona sul. O Uberaba, por exemplo passa por Paraíso, Vila Mariana e outros bairros até desaguar no Traição. Diadema e bairros adjascentes à avenida Cupecê são cortados pelo córrego do Cordeiro. O lixo que é jogado nas ruas em outro bairro vai parar nas galerias subterrâneas e irão chegar ao dreno do Brooklin que desagua no Pinheiros.

QUEM VÊ CUIDA. QUEM VÊ PROTEGE. QUEM VÊ DESPERTA.
QUEREMOS TRAZER OS RIOS PARA PERTO DO NOSSO OLHAR.
É IMPOSSÍVEL CUIDAR DO QUE NÃO VEMOS. 

24 de novembro: dia do Rio

No próximo dia 24 será o dia do Rio e para comemorar o Instituto Limpa Brasil e o Movimento Água Corrente lançaram uma ação de conscientização convidando crianças, jovens e adultos a responderem a pergunta: Como eu vejo e como eu gostaria de ver os rios? É possível gravar um vídeo de até 40 segundos pelo site do Limpa Brasil (clique na imagem abaixo).

A ação ganhou o apoio do Conexão Berrini e do Circuito Rios e Ruas que promove experiências para descoberta dos rios enterrados através da corrida, arte e prática esportiva. “Fiquem atentos em nosso site e redes sociais pois estamos programando para 2021 , uma plataforma de experiências culturais e esportivas que irão acontecer como toda segurança, após a imunização da população contra à COVID-19, provavelmente a partir do segundo semestre . Temos o apoio institucional do SIMA (Secretaria Estadual do Infraestrutura e Meio Ambiente) para relançar da edição única da Corrida e Passeio: Circuito Rios e Ruas – Margens do Rio Pinheiros com foco na educação e sensibilização das pessoas para abraçarem a causa da despoluição do rio!” , revela Charles Groisman, fundador do IdeaAction e criador do Circuito e Mostra Rios e Ruas.

Manifesto artístico do Circuito e Mostra Rios e Ruas:As veias estão para os seres humanos, como os rios estão para as cidades, como os tubos e conexões para as casas, como os vasos capilares estão para as árvores. Somos todos água!
* acesse Circuito Rios e Ruas (em 2014 recebeu menção honrosa da ONU, Projeto com Impacto Mundial tendo como pano de fundo a maior crise hídrica da história da cidade de São Paulo).


Para Marco Braga, do Conexão Berrini, trazer a população às margens do rio é fundamental para lançar um novo olhar à causa: “Vamos reunir as grandes empresas do entorno, o comércio e os moradores da região para se juntar à causa. O programa NOVO RIO PINHEIROS prevê a despoluição no fim de 2022. Mas já há vida pulsando no rio e uma variedade enorme de pássaros, capivaras, árvores frutíferas. As pessoas precisam conhecer e usufruir as margens do rio, hoje restrita aos ciclistas . Onde há vida há esperança.”

Marco Braga (capacete branco) e seu amigo Roberto Battaglia passeiam pela ciclovia da marginal Pinheiros

Clique na imagem e acesse para conhecer a vida que pulsa no rio Pinheiros pelas lentes da fotógrafa Lila Leite:

Veja também:

16 comments

  1. Cecília Stama disse:

    EDDY, bela e curiosa reportagem sobre nosso bairro.Está de parabéns por mostrar aos novos moradores o grande progresso que tivemos nos últimos anos.
    Embora não morando no bairro há tantos anos , vi todo esse progresso, pois morava no Campo Belo.

    1. Eddy disse:

      Cecília, você não só acompanhou como sempre foi muito presente e atuante por todas as melhorias do bairro através do Conseg Brooklin.

  2. Charles Groisman disse:

    Muito especial este resgate da memoria da urbanizacao do bairro do Brooklin. Os Rios chegaram antes de nós e aqui sempre estaram! 

    1. Eddy disse:

      Obrigado Charles! Os rios vêm antes das ruas…

  3. Luiz A Leite Neto disse:

    Cheguei ao Brooklin em 1969 .. vi muito do que foi apresentado acima .. minha infância toda e ate hj no bairro.

    1. Eddy disse:

      Que bom Luiz, se quiser compartilhar estas estórias conosco, envie para contato@inovaberrini.com.br. Obrigado por nos acompanhar.

  4. João Soares Filho disse:

    Parabéns.
    Belíssima matéria.

    1. Eddy disse:

      Obrigado João

  5. Suzan G. Scabar disse:

    Meus sogros vieram para a rua Pensilvânia em 1950. Não tinha agua encanada e nem a rua asfaltada. Também tenho os recibos das prestações da compra do terreno de 500m2 da Cia Bandeirantes. Vim para esse bairro em 1961 e vi enchente nos últimos quarteirões da rua Pensilvânia. Meu sogro construiu a casa com um pequeno porão uma vez que os terrenos eram muito encharcados. A casa hoje é minha e falam que é a única que ainda mantém a mesma fachada até hoje.

    1. Eddy disse:

      Uauu!!! Que estória Suzan, manter a mesma fachada por tanto tempo!!

  6. Telma de Carvalho Craide disse:

    Nasci cresci e resido no Brooklyn desde meu nascimemto em 1951…..acompanhei todas as mudanças….a grande aventura era pegar a bicicleta e caçar sapos com meus irmao na varzea onde hoje e a Berrini…..

    1. Eddy disse:

      Doce lembrança quando as crianças ainda brincavam na rua!

  7. Mara Oliveira disse:

    Parabéns Eddy.
    Excelente matéria. Sempre com excelentes publicações sobre o Brooklin.
    Sua paixão pelo mesmo é semelhante a minha e do Marco Braga, querido amigo, sempre buscando soluções para nosso bairro e arrebanhando pessoas para que o acompanhem nessa jornada.
    Você, como sempre, acompanhando-o e documentando tudo.
    Doces lembranças de minha vida no bairro. Impossível não se apaixonar pelo mesmo. Acompanhar a evolução, é reviver cada instante dessa maravilhosa transformação.
    É tão gratificante fazer parte de tudo isso..
    Obrigada e contem SEMPRE comigo.

    1. Eddy disse:

      Ahh, obrigado Mara. Sou só um aprendiz perto de vocês!

  8. Henrique da silva Alves Júnior disse:

    Meu pai fundou a padaria uniao fialense, ainda esta la, e em 1961 eu nscia e comecaria minha historia passando por todas as histórias reportadas! Enchentes onde as pessoas vinham dormir na sala da casa, pois miravamis por cima da padaria e com as enchentes a agua chegava a mais 1.5 metro e ai as pessoas deixavam suas casas e dirmuam na nossa sala. Ou para os caminhies piderem trazer farinha para a confeccao dos paes eramis obrigadis a contratar caminhies para aterrar da arizona ate a padre antinio para os caminhies nao afundarem. Sao muitas historias. Lindas memorias

    1. Eddy disse:

      Caro Henrique, a Fialense faz parte da estória do Brooklin! Seria um prazer contar sua estória!

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *