INOVA BERRINI

A Origem do bairro Cidade Monções

Por: Heitor Iório

A área onde se situa o bairro Cidade Monções era antigamente uma fazenda de propriedade da família Ermírio de Moraes, onde possuíam uma grande olaria desde 1928. A porteira da fazenda ficava situada na entrada da Avenida Portugal, no sentido de quem vem da cidade para Santo Amaro.

Acervo da Memória Votarantim

O loteamento do bairro iniciou-se por volta de 1945, feito pela Cia. Bandeirantes (grupo Votoran), logo depois do fechamento da olaria. O loteamento foi feito em duas etapas. A primeira, com as construções das casas, conforme veremos logo abaixo, e a segunda, após o aterro das lagoas do Clube Votoran, situado entre as ruas Conceição e Monte Alegre e Arandú.

Antes do bairro se formar, a área era ocupada também, em grande parte, por chácaras com plantações de verduras, flores, e tinha até um haras que ficava na Rua Conceição de Monte Alegre. As chácaras eram exploradas por imigrantes portugueses.

Um de seus primeiros moradores foi o Sr. Vitor Alves da Rocha, hoje nome de rua no bairro, que, segundo relato de seus filhos, mudou-se para o bairro em 1933, precisamente na Rua Pensilvânia, onde montou um armazém de secos e molhados. Esse português vendia a prazo e marcava as vendas em uma caderneta, que ficava em poder do comprador, que só pagava o que devia para ele no final do mês. Eram outros tempos, o fio do bigode valia.

As ruas do bairro foram abertas pela Votoran, com tratores que eram dirigidos pelo saudoso Sr. Marcilio Giopatto, morador em uma das casas da olaria e pai de grandes amigos nossos, dentre eles a Lucia, que até hoje convive conosco no Açaí Clube. Segundo fontes consultadas, o Sr. Marcílio foi quem abriu todas as ruas do bairro. Uma curiosidade é que a maioria das ruas tem nomes de estados ou cidades americanas, tais como: Luisiânia, Califórnia, Miami, Filadélfia, Flórida, Los Angeles, Cincinati, Nova York, etc.

Acervo da Memória Votarantim

Fora a grande olaria que era da família Ermírio de Moraes, tinha também a Sociedade Hípica Paulista, que foi fundada em julho de 1911, no bairro de Pinheiros, e veio para o Monções em 1939, com a sua entrada principal voltada para a Rua Quintana. Vieram também para o bairro algumas fábricas, tais como: a Bombril, a Resmat, os Laboratórios Abbott e Pravaz.

foto: Galera do Bronk’s

No início dos anos 50, foi construída a primeira capela do bairro para abrigar o nosso padroeiro São João de Brito, cuja estátua tinha vindo de Portugal e ficou guardada na casa do saudoso Sr. Siqueira, de onde foi levada em procissão para a nova capela. Logo depois, atrás da capela, foi construída a igreja atual. Seu primeiro pároco foi o Padre Antonio José dos Santos, hoje nome da principal avenida do bairro.

Em 1953, foi construída pelo Estado a primeira escola do bairro, que era de madeira, cujo primeiro nome foi: Grupo Escolar Cidade Monções – aliás, escola esta onde terminei o curso primário….(continua)

Por que Cidade Monções?

Monções é uma palavra de origem árabe. No singular, monção significa “estação do ano em que se dá determinado fato”, ou também “vento próprio para navegação”. No Brasil, o termo deu nome às grandes expedições fluviais que partiam da cidade de Porto Feliz, Estado de São Paulo, nos séculos XVII e XVIII, por meio do Rio Tietê, e iam em busca de ouro nos Estados de Mato Grosso e Goiás.

O grupo Votoran tinha uma sociedade imobiliária denominada Cia. Bandeirantes, que foi quem fez o loteamento de todo o bairro. A Cidade Monções compreendia os quarteirões formados pela Rua Califórnia até a Rua Guaraiuva, tendo como ruas laterais a Avenida Padre Antonio José dos Santos (antiga Avenida Central) de um lado e, de outro lado, a Rua Flórida. Tinha uma segunda gleba loteada que era formada pelas ruas Ribeiro do Vale e Rua Mangoatá, tendo como ruas laterais a Rua Michigan e a Rua Arizona.

Nesse loteamento, por meio de uma outra empresa do grupo Votoran, a Cia. Monções, por volta de 1946, iniciou a construção das casas de moradia, todas iguais, térreas e cujo comprador, na época, ganhava um carro Anglia como brinde. O carro era para facilitar a locomoção, uma vez que o bairro não tinha nenhum tipo de condução coletiva, quer particular ou pública. Assim, surgiu o Bairro Cidade Monções, nome da companhia que construiu grande parte das casas.

Acredito que o nome foi dado porque, naquela época, para chegar-se ao bairro vindo da cidade, havia muita dificuldade e a Cia. Monções organizava, nos fins de semana, expedições do centro para o bairro em condução própria, para que os interessados pudessem ver o empreendimento. Por analogia, podemos dizer que eram verdadeiras monções.

Também, no início dos anos 50, foi fundada a Sociedade Amigos do Bairro, pelos saudosos Srs. Morita, Ernesto, Siqueira, Wilson, Prof. Camargo e mais alguns que, infelizmente, a memória não me ajudou, cuja finalidade era conseguir para o bairro melhorias necessárias, tais como escola, luz, água, transporte, asfalto, etc.

Esses senhores também fundaram uma cooperativa de alimentos, que consistia, na época, em comprar os gêneros de primeira necessidade no atacado e repassá-los aos sócios da cooperativa a preço de custo. Era um trabalho desinteressado. A intenção era servir o próximo. A Sociedade Amigos do Bairro funcionou até o início dos anos 70 e conseguiu grandes melhorias para o mesmo.

Hoje onde é a Avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini, corria um riacho de águas limpas, local que eu tive o prazer de nadar. Da ponte do Morumbi em direção a Usina da Traição, passando por dentro do bairro, havia um braço de rio (apelidado na época de Rio Pinga). Rio este que foi aterrado com a areia tirada do fundo do Rio Pinheiros, dando início a um outro loteamento denominado Jardim Edith (nome este dado em homenagem a Dona Edith, que foi a corretora que cuidou da venda desses novos lotes).

Se formos analisar os bairros Cidade Monções, Jardim Edith, Hípica Paulista, eu diria que todos estão dentro do atual Brooklin Novo.

O progresso chegou depressa demais e hoje o nosso bairro tem, na Avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini, os prédios mais bonitos do Brasil. Eu posso afirmar que assisto esse crescimento do bairro durante quase 59 anos, tempo este que resido no mesmo, primeiramente na Rua Guaraiuva, depois na Rua George Ohm e atualmente na Rua Conceição de Monte Alegre.

Heitor Iório

Heitor Iório mora desde 1949 no Brooklin e escreveu esta e outras crônicas sobre o bairro no site “São Paulo Minha Cidade“.
Clique aqui para ler a matéria completa!

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4 comments

  1. Cyro Raphael Monteiro da Silva disse:

    Caro amigo Heitor, um grande amigo sabedor da minha historia na Cidade Monções e no Açaí, enviou-me esta publicação sua. Fiquei contente em recebe-la, e li atentamente. Parabenizo pelo trabalho, desconhecia essa particularidade. Com relação aos fundadores da Sociedade Amigos da Cidade Monções colaboro lembrando o nome do Raimundo, que para mim foi o responsável pela fundação do nosso AÇAÍ CLUBE em 25/01/1960; disse-me ele que não entendia como uns jovens fundaram e dirigiam um clube, enquanto a Sociedade dos Amigos tinha problemas de administração. Foi ele que apresentou sócios para comporem a nossa primeira diretoria. LI que você descende de sicilianos, eu tenho orgulho de ser neto de um siciliano.
    Forte abraço caro amigo

  2. Eliana Q Barbosa disse:

    Vim morar com 5 anos na rua Carolina do Sul. Era uma pequena rua com 10 casas muito bonitas com plantas semelhantes. Passei minha infância nesta rua, estudei no Beatíssima e depois entrei na escola Estadual Alberto Conte em Santo Amaro. Estive uns anos fora do bairro e voltei para a nossa casa para casar-me com 22 anos. Mas o noivo morreu, então casei-me com 27 anos e mudei-me para Pinheiros. Voltei para o bairro 7 anos depois e aqui permaneço há 43 anos. Vou fazer bodas de ouro este ano. Adoro meu bairro e agora estamos muito bem atendidos com todo tipo de comércio.

  3. Genevieve Yachouh disse:

    Muito interessante a história de nosso querido bairro. Vim para cá em 1960, aos seis anos de idade e vivo até hoje aqui. Passaram-se sessenta anos e acompanhei passo a passo a evolução do bairro. São muitas boas lembranças!!!!

  4. Regina Semedo disse:

    Muito da história da minha família moradores da rua Florida desde 1950.

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