INOVA BERRINI

Almoço de quinta na Praça Lions Monções

Por: Sibélia Zanon

Artesanato, hambúrguer e yakissoba na pequena floresta

O punho cerrado – e verde – do incrível Hulk abre uma brecha na rotina da semana. Na praça, o moço de camiseta listrada azul e branca fala em francês no celular com capa vermelha. Do lado direito, um Carrefour Express e, do lado esquerdo, uma alameda de plátanos. Será que estamos numa cidade do interior da França?

Se fosse um pardal-francês daria jeito, mas um bem-te-vi canta alto e contraria minha hipótese. Olho para cima e vejo o telhado de flamboyants, coqueiros, amoreiras e tipuanas mesclando os verdes. Algumas falhas entre as folhas fazem notar a altura dos prédios, vencendo de longe as copas das árvores.

Muitos crachás passeiam despreocupadamente pelas barracas da feira. A barraca com plaquinhas de madeira traz frases divertidas e rompe com o bom comportamento corporativo. Revela que o humor guarda muita verdade: Tão perdida quanto Alice. Tão maluca quanto o chapeleiro. Também leva a esperançar por um final de semana digno: Cerveja não engorda, preenche o corpo de felicidade.

As camisetas de super-herói dão coragem para encarar qualquer dia. Na mesma bancada, um bando de notáveis disputa espaço com Hulk, aquele que abre esse texto, e meu herói favorito desde a infância, quando meu pai ameaçava virar o Hulk, caso a minha irmã não parasse de me atormentar.

Lá em casa era meu pai, mas na feira, o criador do Hulk e de toda a tropa é Rômulo Braga, que expõe na praça há seis anos, e cria estampas personalizadas com aerografia. 

Rômulo Braga: aerografia para personalizar camisetas

– Eu faço o que você não vai ver na vitrine. – Diz o carioca, que adotou o Brooklin e aceita todo tipo de encomenda.

Veríssimo Bar

De longe, uma buzina e outra freada me acordam das férias no interior. Interior da praça. Na esquina da Flórida com a Nova Independência, Veríssimo me provoca, enigmático: Você só sabe até onde pode ir quando já foi. O restaurante homenageia Luís Fernando Veríssimo e oferece numa prateleira todas as suas obras para serem degustadas com as refeições.

Entre argolas douradas e pedraria colorida, Inah chama atenção, mostrando o brinco clássico na própria orelha:

– Estou usando um seu!  Eu uso dos dois lados.

Eva Fernandes, que faz boa parte das bijuterias que comercializa há seis anos na feira, comenta com orgulho:

– Aqui a gente aprende com os clientes!

A barraca de bijuterias da Eva Fernandes

Inah Martins, a dona do brinco, frequenta seguidamente o local. Trabalha na Luigi Galvani, mora na Kansas, e usufrui dessas bandas do bairro, seu próprio quintal.

Tá vendo aquela barraca ali? Ele é estilista e faz as minhas roupas. – Conta animada, falando de Fábio Sancho, há quatro anos na praça, satisfazendo o apelo vintage das clientes. Ao ar livre, um provador de roupas feito de cortinas cor de rosa e perfume de incenso – que vem da barraca ao lado – fica constantemente povoado. Entra vestido, sai blusa. Entra loira, sai morena.

Inah Martins, frequentadora assídua da feirinha, trabalha e mora no Brooklin.

Com o horário do almoço no auge, as mesinhas de bar se fingem de domingo. Para contrariar, reinam yakissoba e tapiocas no lugar dos pasteis. Mas a democracia é grande, tem marmita trazida de casa e intrigantes saquinhos brancos disputando espaço nos bancos de cimento. Chego mais perto deles e descubro o logo da hamburgueria Patties com um papelzinho grampeado: Fuja do ambiente fechado e coma na praça. Ok, ordens cumpridas, tudo entendido! Na porta da hamburgueria, a fila não descansa e quase alcança a praça.

Fila do almoço no Patties Burguer

Às 13h30 do dia 31 de outubro, com passantes em clima de Halloween importado, a fila leva 25  minutos: lá do final até a hora de desbravar o rango com as próprias mãos. Do outro lado da rua, nas mesinhas pretas colocadas descontraidamente na calçada, três barbados se deliciam com os lanches já semidevorados. O moço de óculos, na faixa dos 24 anos, é fã:

A fila vale! – O pedaço de bacon que ameaça escapar do seu sanduíche parece comprovar.

Os que ainda estão na fila precisam driblar a fome. Três marmanjos jogam algum joguinho eletrônico, festejando:

Matei um!

Ou sofrendo:

Morri.

De volta à feira, com meu próprio saquinho branco em mãos, passeio por tapetes à partir de R$ 10, bolsinhas e necessaire artesanais, bijuterias, caixas forradas com motivos florais, roupas de bebê, roupas de adulto, tapiocas, incensos, frases, gentes.

Mesmo as empresas mais tradicionais liberam o dress code no dia das bruxas e todas as tatuagens são levadas a passear, sem pudor. A baixinha de cabelo fúcsia e azul tem um ovni verde na batata da perna. Abaixo da bermuda cinza, o homem carrega uma caveira florida, que lembra o dia dos mortos no México. A moça loira tem sangue provisório escorrendo pela lateral da testa, enquanto conversa vivamente com a amiga em espanhol. Quanta assombração!

Na barraca de frases engraçadas, há também um pouco de filosofia:

Proibido estacionar na vida.

A chamada serve para lembrar que o horário do almoço está terminando. Às 14h30 já se pode escutar o barulho do ferro de algumas barracas pensando em sair de fininho. A feira termina oficialmente às 16h. Na esquina da Flórida com a Nova Independência passa um vestido da cor dos hibiscos ali plantados, anunciando, ironicamente em tons róseos, a volta ao trabalho. Mas por pouco tempo. O punho do incrível Hulk logo entrará novamente em ação para abrir uma brecha mais robusta na rotina.  O final de semana está chegando!

Feira de Artes e Artesanato Lions Monções
Local: Praça Lions Monções – Rua Flórida x Rua Nova Independência
Horário: das 10h às 16h

Veríssimo
Local: Rua Flórida, 1448

Patties Hamburgueria
Local: Rua Flórida, 1420

Para não dizer que não falei de pastel:
Casa do Pastel
Local: Av. Nova Independência, 44

Pastelaria Oishiya
Local: Rua Flórida, 1406

Para uma alimentação bem saudável:
Recanto Vegetariano
Local: Rua Flórida, 1442 


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